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Autocrítica: quando “se cobrar” vira violência interna

  • Foto do escritor: thiagovbastos
    thiagovbastos
  • 2 de mar.
  • 4 min de leitura

A semana termina, o projeto está finalmente concluído e entregue. Você olha para sua equipe: todos sorridentes, leves, já combinando onde irão celebrar mais esse objetivo alcançado. O cliente entrou em contato há pouco, surpreso e satisfeito além do esperado. Seus superiores o cumprimentam, sua equipe o parabeniza. Não tem como não sorrir. E, ainda assim, no meio desse reconhecimento tão claro, surgem perguntas que ninguém te faz — mas que te assaltam por dentro. Perguntas antigas, quase sem rosto, vindas de um tempo tão remoto que você não tem lembranças nítidas, só ecos: “Será que eu dei sorte de novo? Foi tão bom assim? Eu não deveria ter feito mais?” As vozes de um Superego que não cessa de te cobrar.


A questão não é o elogio. Você o ouviu. Você até acreditou por alguns segundos. A questão é o que acontece depois: uma parte sua que simplesmente não permite que o reconhecimento se acomode. Como se houvesse sempre um porém, um senão, uma falha microscópica que só você enxerga e que anula todo o restante.


É um movimento tão automático que parece natural: quanto melhor você faz, mais alta fica a régua. E, quando a régua sobe, não importa o quanto você entregue — você nunca se sente à altura dela. É como viver diante de um espelho que aumenta imperfeições e reduz conquistas.


Essas vozes internas que cobram, diminuem e questionam — por mais íntimas e silenciosas que sejam — não surgem do nada. São marcas de um tempo em que aprovação era condição de pertencimento, ou em que errar tinha custo alto demais. Chamamos isso de Superego, mas não precisa do nome para sentir o peso: é aquela instância que compara, vigia, exige, pune. E que se alimenta justamente da sua sensibilidade.


O paradoxo é cruel: quanto mais competente você é, mais combustível essas vozes têm. Quanto mais você se dedica, mais elas pedem. Quanto mais você entrega, mais elas sussurram que poderia ter sido diferente, melhor, mais perfeito. E é nesse ponto que a autocrítica deixa de ser bússola e vira arma. Não ajuda você a se orientar — só te fere por dentro.


O efeito, com o passar do tempo, é um deslocamento silencioso: você perde a capacidade de se alegrar com o que realiza, passa a desconfiar dos próprios méritos e vive como se estivesse sempre devendo algo a alguém — mesmo quando ninguém está cobrando.


A vida externa avança; a interna fica suspensa, presa numa revisão contínua do que já passou.


O que chama atenção é que essa voz raramente aparece como “eu te odeio”. Ela aparece como “eu só estou te ajudando”. Ela se veste de prudência, de exigência, de disciplina. Ela diz que está te protegendo do erro, da crítica, da queda. E em parte, em algum momento, talvez tenha mesmo protegido. Mas quando essa proteção vira regra, ela começa a te impedir de viver.


Porque não é apenas sobre trabalhar muito. É sobre não poder descansar sem culpa. Não poder receber um elogio sem desmontá‑lo. Não poder falhar em paz. Não poder estar entre pessoas sem, por dentro, estar se avaliando. A autocrítica, nesse ponto, não melhora a qualidade da sua vida — ela só torna a vida mais estreita.


E costuma ser assim: quanto mais você tenta se “corrigir”, mais a voz cresce. Quanto mais você tenta “provar” que é bom, mais ela encontra um detalhe para desmentir. Isso acontece porque ela não está em busca de excelência; ela está em busca de uma segurança impossível: a garantia de que você nunca será reprovado, nunca será abandonado, nunca será diminuído. Só que essa garantia não existe. E o preço de tentar comprá‑la é alto.


Às vezes, o primeiro passo não é “silenciar a voz”. É reconhecer quando ela fala e como ela fala. Quase sempre ela chega assim:

  • transformando o que você fez em pouco (“qualquer um faria”)

  • transformando um risco em sentença (“se eu errar, acabou”)

  • transformando um elogio em ameaça (“agora esperam mais”)

  • transformando um descanso em culpa (“você não merece parar”)


Reparar nisso não muda tudo na hora. Mas muda o lugar de onde você escuta. Em vez de obedecer, você começa a observar. E observar já é uma forma de liberdade.


Talvez valha se fazer, com delicadeza, algumas perguntas:

  • Se eu não tivesse que provar nada, o que eu faria diferente hoje?

  • De quem é essa régua que eu uso comigo — ela é mesmo minha?

  • O que eu temo que aconteça se eu simplesmente aceitar que fiz o suficiente?

  • Em que momentos eu me trato de um jeito que eu não trataria ninguém que amo?


Não se trata de abandonar a exigência. Trata‑se de tirar a exigência do lugar de tribunal. De devolver a ela uma função humana: orientar, afinar, cuidar — e não punir.

Quando a autocrítica perde o monopólio, algo simples começa a voltar: a possibilidade de se alegrar sem pedir desculpas, de descansar sem se justificar, de existir sem estar sempre se defendendo de uma reprovação imaginária.


Se isso faz sentido para você, a clínica pode ser um lugar seguro para entender de onde essa voz vem, por que ela insiste, e o que ela tenta evitar — até que você possa construir, por dentro, um outro tipo de apoio.



 
 
 

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